Trilhos de um Barbeiro



O Sr Matusse abre a sua barbearia logo pela manhã, visto ser o seu único ganha pão, além da pequena criação de galinhas poedeiras que tem nos fundos de casa. Vendidos os ovos, ganha algum dinheiro que adicionado aos lucros da barbearia, lhe ajudam a enfrentar as despesas mensais.


Mas o que ele faz com prazer é cortar cabelo. "embonitar seus cientes"! Pelas manhãs, as barbearias ficam mornas, muito pouco movimento. A essas horas, Sr Matusse dedica-se a obtenção de informação, com o seu pequeno rádio ele escuta o noticiário, programas de debate, por vezes surgem algumas músicas antigas, do tempo da balalaica e vestido de bolinhas com flores, mas a maioria das vezes não é isso que aparece, é sempre o mesmo ”Ai Baby Chupa-me, abana esse bum bum, dá-lhe no mambo, ai, se eu te pego, etc”

Isso acontece frequentemente, Sr Matusse abana a cabeça e sussurra, ”já começou a pornografia radiofónica” e volta a ler o jornal.

Ao meio dia, seu filho primogénito que está de passagem rumo aos seus deveres académicos leva-lhe o almoço. Dá um abraço no pai e este entrega-lhe o dinheiro do transporte, em seguida da-lhe a mesma recomendação de sempre ”Se for para seres Barbeiro, só se for na Casa Branca, por isso é melhor estudar ”O filho esboça um sorriso, depois de ouvir o repetitivo conselho, despede-se e segue o seu rumo.

As horas das refeições são sagradas para o Sr Matusse, então fecha temporariamente a barbearia, senta-se, faz uma pequena oração e enamora os cozinhados da senhora sua esposa, Dona Teresa. Terminado o almoço, repousa, fica viajando em seus pensamentos, reflectindo sobre a sua sina. Embora pobre, é feliz, pois há duas faces neste mundo. Há uma que reclama e amaldiçoa e outra que reconhece e agradece. A indiferença é um estado de morte psicológica e espiritual. ”Pois é, não tenho muito, mas tenho o suficiente ”Como se tivesse sido atingido por um toque mágico, o Sr Matusse adormece. Ao despertar o dia já está adiantado e o sol menos abrasador. Reabre as portas ao público, veste a bata e espera por eventuais clientes.

Há algo engraçado que lhe vem à mente. Um Barbeiro e um Barman têm algo em comum. A sina de estar “condenado” a ouvir desabafos de todo mundo e ter de dar o seu parecer. Ambos são frequentemente solicitados para dar conselhos. A um bar ou uma barbearia, vem gente de todo mundo, de todas as cores, de castas sociais diferentes e níveis académicos igualmente diferentes.

Nsses lugares fala-se sobre tudo aquilo que engloba a sociedade, crenças e descrenças, relacionamentos, desporto, politica, enfim tudo aquilo que se passa na terra que actualmente é governada por Lúcifer. E em tudo isto, Sr Matusse deixa o seu parecer com educação e mestria adquirida com o tempo:

- Olha lá Matusse, a tipa já está a abusar da minha lealdade. É esposa do vizinho. Ok, devo respeito a ambos, trocamos cordialidades e tal...mas tem de haver limites, ela anda muito sorridente!
- O que se passa exactamente?
- Como ela sabe que eu trabalho de noite e que sou viúvo, logo, sou mais vulnerável a cometer delitos!
-Irmão, podes falar Português?
- Estou a enrolar nem? Ok. Ontem de manhã, ela pediu-me ajuda para ligar a mangueira da botija de gás ao fogão.
-E que tem de errado com isso?
-Haaaaaaaaa Matusse, veio de capulana, e assim que entrou em seus aposentos voltou de ceroulas - Colants!
-Opa, e quem estava com mais calor, o senhor ou ela?
-Há há há há há provavelmente os dois!
- E o senhor seguiu o ritmo? Por acaso subtraiu algo?
- Nada, era quase meio dia, as crianças já deviam estar de volta. Só por isso, mas o GAJO, já estava nervoso, e ela então que diz? ”Estás com calor não é?melhor tirar a roupa se não a botija explode”. Quer dizer, estava a provocar pah! Mas eu me controlei, passei os olhos pelas paredes e dei de cara com um retrato do esposo, a peidar-me sooooo, aquilo iria feder que não vale a pena pah, montei a droga da mangueira, parei em frente dela, olhei o meu GAJO e depois olhei pra ela, saí e fui embora. Mas haaaaaaaaaaaaaaa, da próxima não vou hesitar!
-Epah, meu amigo, coma e limpe a boca, e reze para que haja água para lavares as mãos, caso não, as moscas sentirão o cheiro.
-Yah, bem falado Matusse. Sabe você fala bem pah, deverias ser conselheiro do estado.
-Há ha ha ha não exageres makwero. Enfim, que tal, como está o penteado? Está bem assim?
-Muito bom, gostei mesmo, ni xonguile (estou bonito) agora é que a gaja não me larga!
-Ha ha ha ha creio que o motivo da tua visita a minha barbearia é ela...
O cliente levanta-se satisfeito da boa prosa e dos serviços prestados. Paga mais do que o devido, dá um aperto de mão ao amigo e entra na onda dos peões. Assim que este sai, mais fregueses entram. Enquanto o Sr Matusse trata de um deles, os outros jogam damas e esbanjam conversa na qual o barbeiro sempre intervem inteligentemente.

A tarde passa, a noite se faz presente e o clima da barbearia fervente. Ouve-se de tudo e todos, mais gorjetas vem e mais clientes também. Novidades são compartilhadas, salvas de palmas são dadas quando merecidas, protestos e o zumbir da máquina do Sr Matusse. É a confraternização entre os homens,a arte de socializar.

Quando a noite se faz mais aguda, pouco a pouco cada um deles se despede e faz a sua caminhada. Passado alguns minutos Sr Matusse está sozinho, fecha a porta e as janelas do seu local de trabalho, senta na cadeira giratória dos clientes e faz as contas do dia.

Quer tenha sido bom ou um mau dia de trabalho, pois nada neste mundo é estável, não existe uma estabilidade completa. Ele simplesmente agradece. "É suficiente, falta-me para algumas coisas, mas sobeja para outras, com isto dou mais valor ao que tenho e ganho mais forças para conquistar o que não tenho. Pois é, não tenho muito nem pouco. Tenho o suficiente"

Mete a renda diária na carteira, apaga a luz e sussurra para si mesmo ”Obrigado Meu Deus”. Tranca a porta e mete-se pela escuridão dentro, rumo ao aconchego de que mais lhe quer bem, abraços lhe esperam e um beijo para complementar. Vai repousar, recarregar as energias para que no dia seguinte enfrente mais um dia de Barbeiro, para garantir o suficiente!

“Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia noite. É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje. Posso reclamar porque está chovendo ou agradecer às águas por lavarem a poluição. Posso ficar triste por não ter dinheiro ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício. Posso reclamar sobre minha saúde ou dar graças por estar vivo. Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria ou posso ser grato por ter nascido. Posso reclamar por ter que ir trabalhar ou agradecer por ter trabalho. Posso sentir tédio com o trabalho doméstico ou agradecer a Deus. Posso lamentar decepções com amigos ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades. Se as coisas não saíram como planeei posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar. O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma. Tudo depende só de mim” .(Citação, Chaplin, Charles)


Compartilhe este artigo :


Share

0 comentários:

Siga o Moz Maníacos no Facebook

Olá leitor,
Nao comente como Anónimo Use a opção Nome/Url para comentar com seu Nome ou Nick. Obrigado!